BOONVILLE, Califórnia — Uma placa apoiada do lado de fora de uma loja de vinhos nesta pequena comunidade da Califórnia era direta ao ponto: “Filhotes aqui dentro”.
Joshua Korbel, engenheiro de som de 43 anos, gostava tanto de vinho quanto de cachorros.
“Então pisei no freio, encostei o carro e entrei naquela sala de degustação”, contou.
A propaganda não mentia. Mais de uma dúzia de filhotes corria pelo piso de madeira e se espalhava por um sofá de couro em formato de L ao lado do balcão. Pareciam border collies de pelo curto, com focinhos pontudos e orelhas caídas, mas exibiam cores que iam do preto e branco ao marrom e até um cinza suave. Eram alguns dos cães mais bonitos que Korbel já tinha visto.
Eram fox collies, explicou Andy DuVigneaud, enólogo e proprietário da loja. Não se trata de uma raça oficialmente reconhecida. Ainda não. Mas DuVigneaud está determinado a mudar isso.
Ele acredita que esse cão, cujas origens remontam à Califórnia do fim do século XIX, pode ser o antídoto perfeito para muitos dos problemas de 2026. Problemas dos humanos, cada vez mais solitários e desconectados, e também dos próprios cães, criados para trabalhos que já não existem.
Fox collies em Boonville, Califórnia, em 7 de agosto de 2026. (Kelsey McClellan/The New York Times)
O ancestral perdido
O fox collie é considerado um ancestral do pastor McNab, um popular cão de trabalho de fazenda com raízes nas Terras Altas da Escócia e que quase desapareceu em meados do século XX.
Segundo DuVigneaud, trata-se simplesmente do “melhor cachorro do mundo”.
O fox collie consegue trabalhar em fazendas e correr o dia inteiro, mas também buscar bolinhas, viajar longas distâncias no banco do passageiro e descansar tranquilamente ao lado do tutor. Ao contrário dos border collies, conhecidos pela energia praticamente inesgotável, os fox collies também dominam a arte de relaxar.
Com uma operação modesta, DuVigneaud tenta repovoar o planeta com essa versão ideal de cachorro, recriando a linhagem por meio de cruzamentos seletivos. E faz isso cerca de 240 quilômetros ao norte do Vale do Silício, da forma mais analógica possível: escolhendo os cães de que mais gosta e cruzando-os para gerar novos filhotes.
A lenda dos McNabs
DuVigneaud cresceu no Vale de Anderson, uma região rural do norte da Califórnia conhecida por vinhedos, pomares e fazendas de pecuária.
Hoje ele vive na mesma propriedade onde nasceu, em uma casa construída pelo pai. Divide o espaço com a companheira, Corey Lester, dezenas de cães e alguns gatos.
Quando criança, conheceu muitos cães da raça McNab, uma mistura de pastor e collie bastante popular entre os fazendeiros da região.
A linhagem teve origem com o imigrante escocês Alexander McNab, que chegou à Califórnia em 1866 e se decepcionou com os cães pastores locais. Mais tarde, importou da Escócia um casal dos chamados Scotch Collies.
“Em resumo, ele é o pastor ideal”, escreveu Lulu McNab, filha de Alexander, em 1898.
Mas DuVigneaud lembra que existiam diferentes tipos de McNab. Alguns eram menores, tinham pelos mais curtos e tonalidades avermelhadas. Além de serem excelentes trabalhadores, eram conhecidos pelo comportamento extremamente leal e tranquilo.
Ele jamais esqueceu essas histórias.
O nascimento do fox collie
Durante anos, DuVigneaud sonhou em encontrar um desses cães lendários. O projeto acabou ficando em segundo plano enquanto ele administrava uma sala de degustação e uma empresa de cannabis.
A pandemia mudou tudo.
Durante o isolamento provocado pela Covid-19, ele comprou uma cadela McNab chamada JJ. Ela parecia reunir exatamente as características descritas nas histórias que ouvira quando criança.
Encantado, decidiu pesquisar a origem da raça.
Descobriu que Alexander McNab retornou várias vezes à Escócia para buscar novos Scotch Collies, que passaram a ser cruzados com pastores-australianos e border collies. O resultado foi o pastor McNab, vendido para fazendeiros da Califórnia em uma época em que humanos e cães possuíam funções muito bem definidas.
DuVigneaud chegou à conclusão de que JJ era geneticamente muito próxima dos Scotch Collies originais. Encontrou então outro exemplar semelhante e fez o cruzamento.
Assim nasceu o fox collie.
Desde 2020, ele já produziu 16 ninhadas. Utiliza testes de DNA para evitar problemas genéticos comuns em cães de raça e escolhe os reprodutores principalmente com base em tamanho e temperamento.
A estratégia parece estar funcionando.
A fama dos fox collies se espalhou pelas redes sociais e, principalmente, entre viajantes atraídos pela curiosa placa anunciando filhotes.
Segundo DuVigneaud, mais de 400 pessoas já manifestaram interesse sério nos animais.
A lista da esperança
Korbel foi uma delas.
Depois da primeira visita, passou a retornar sempre que passava por Boonville.
DuVigneaud o incluiu em sua chamada “lista da esperança”. Não é exatamente uma fila de espera tradicional. Trata-se de uma coleção de cartões coloridos contendo informações dos interessados e detalhes sobre a vida que pretendem oferecer aos cães.
Alguns recebem estrelas.
“Dei uma estrela para um homem de Ukiah que tem um filho autista não verbal apaixonado por cachorros e um quintal cercado”, explicou.
Korbel recebeu duas estrelas.
Poucas semanas depois, recebeu uma proposta considerada rara: escolher um filhote.
Ele levou para casa a única fêmea marrom da ninhada e a batizou de Morena.
“Ela é simplesmente a melhor cachorra que já tive”, disse.
Com apenas quatro meses de idade, Morena já estava totalmente treinada para fazer as necessidades no lugar correto, caminhava praticamente sem guia pelas ruas de São Francisco e até aprendia truques sozinha observando outras pessoas em um parque de skate.
Um cachorro para um mundo mais solitário
Especialistas estimam que os cães convivam com os seres humanos há mais de 15 mil anos.
No passado, eram criados para executar tarefas específicas, como pastorear ovelhas. Hoje, explica o antropólogo David Howe, muitas dessas funções desapareceram.
“Na maior parte da história recente, os cães tiveram papéis utilitários”, afirmou. “No mundo moderno, já não precisamos deles para essas funções.”
O resultado é que os cães se transformaram em animais de companhia e apoio emocional.
Em uma sociedade marcada pela solidão crescente, eles ajudam a preencher lacunas de relacionamento e oferecem propósito diário aos seus tutores.
Por enquanto, DuVigneaud é o único criador de fox collies.
Apesar das críticas de quem argumenta que milhões de cães abandonados aguardam adoção, ele defende seu projeto e afirma seguir práticas consideradas éticas, incluindo testes genéticos e uma seleção cuidadosa dos futuros tutores.
Os cães são vendidos por US$ 1.000 cada.
Ele insiste que não faz isso pelo dinheiro.
Seu objetivo, diz, é mais ambicioso.
“Estou tentando mudar o mundo.”
Para DuVigneaud, os cães de trabalho serão cada vez mais substituídos por drones e outras tecnologias. Os humanos, acredita ele, viverão uma crise semelhante de propósito com o avanço da inteligência artificial.
Nesse cenário, o vínculo entre pessoas e animais poderá se tornar ainda mais importante.
Quando o repórter visitou a propriedade do criador em agosto, um incêndio florestal queimava não muito longe dali. O futuro parecia particularmente sombrio. Mas havia algo reconfortante naquele lugar:
Ainda existiam filhotes.
c.2026 The New York Times Company
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Ele diz ter encontrado o “melhor cachorro do mundo”. E quer espalhá-lo pelo planeta
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